Das cordas e dos limites

Há quem goste desse jogo, do esticar a corda, quem todos os dias a puxe mais um bocadinho… E a corda vai-se deixando ir, dando de si, enfraquecendo.

Todos os dias há quem teste os nossos limites e os force mais um bocadinho e todos os dias vamos cedendo e os nossos limites alargando e alargando.  E um dia, repararemos que já não os reconhecemos, aos nossos limites, que deixámos a corda esticar demais, que se esticaram demais, que nos encolhemos demais…

E, talvez seja por isso, por essa percepção revoltante de quem se perdeu, que, num dia, igual a tantos outros, há alguém que se passa, que foge, emigra, hiberna, entra em depressão…

Todos temos os nossos limites, e todos os dias tentam que abdiquemos deles, brincam e vão mais além. Todos os dias nos esticam a corda e a paciência, esquecendo que há um limite sagrado para toda a gente, a gota que faz transbordar o copo, no dia em que acordamos, lavamos a cara e vemos um estranho do outro lado do espelho. Um estranho  de quem nem sequer gostamos… E nesse dia a corda rebenta, por tudo e por um nada qualquer, e nem importa quem é o lado mais fraco ou mais forte, nesse dia, ela rebenta para todos os lados. É esse o risco do jogo, nunca sabes quando chega esse derradeiro limite, esse puxão, essa consciência que ” enough is enough” que inverte o jogo e faz com que a corda e a loiça toda se parta, irremediavelmente!

É que, é como se diz ” Há um limite em que a tolerãncia deixa de ser uma virtude” Edmund Burke

17/06/2009 at 11:26 2 comentários

Das abstenções

A taxa de abstenção nas eleições choca sempre muita gente. Porque é um dever civico, porque não podemos deixar que os outros tomem decisões por nós, porque temos que ser pro-activos e participativos. E de todas as vezes que há eleições, se renovam os argumentos e o apelo ao voto, e cada vez mais há mais abstenção.

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Cada vez mais as pessoas se abstêm, nas eleições e na vida, abstêm-se de falar, de tomar decisões, de fazer o que está certo, de mudar, de se zangarem, de tomarem partidos. É a era da acomodação: “se nada vai mudar mesmo, então também não me vou chatear”.

A abstenção é o voto seguro: “não tomo partido, se houver porcaria também não contribuí para isso.”

Parece-me que ao contrário do voto nulo ou em branco, que é de protesto, a abstenção é o deixa andar, é o já desisti disto, nada vai mudar, é a manifestação de descrença.

Como na vida. Não é só por cobardia que nos abstemos, vai muito para além disso, abstemo-nos porque achamos que o nosso “voto” não vai mesmo contar, abstemo-nos por falta de motivação, porque apesar de acreditarmos no que nos move e nos nossos valores, quando olhamos à nossa volta parece fizeram uma venda de garagem com tudo isso, e não vale a pena a chatice.

Mas, o que esquecemos, é que sempre que nos abstemos, perdemos uma oportunidade, sempre que nos abstemos, concordamos com o que se decidir, com o que se disser, com o que se fizer e hipotecamos a nossa possibilidade de ser contra.

Por isso, sempre admirei e admiro cada vez mais os que dizem o que acham, os que manifestam a sua opinião, ainda que , às vezes, a medo, os que superam o nó que têm na garganta e fazem frente ao despotismo, os que se debatem por aquilo em que acreditam, os que não se vendem  nem deixam andar, os que tomam partidos e posições e apontam o dedo ao que acham que está mal.

A mim, não me chocou a taxa de abstenção, nem me impressionou que tenha aumentado, todos os dias, à minha volta, vejo pessoas que se abstêm da sua própria identidade, que têm o lema ” comer e calar” como opção de vida e quase olham de lado os que pedem o livro de reclamações.

Porque, no fim, a abstenção não ganha nada, nem conta para nada, no fim, na prática, é como se não existisse, não muda, não cria e nem destrói nada, tanto nas eleições, como na vida. 

 

09/06/2009 at 12:11 Deixe o seu comentário

26

Tenho uma amiga que entrou em crise no dia em que comemorou os seus 26 anos. Não queria nenhum jantar, nem telefonemas, nem coisa nenhuma, queria não se lembrar que tinha 26 anos…

Na verdade o problema dela, e o de todos nós que pensamos nestas coisas inúteis, é o poder do número: 26! Mais de 1/a de 100. Mais próximo do 30 que do 20. O 26 tem o poder de dar a entender uma viragem qualquer: já não podes ter cartão jovem e deixas automaticamente de pertencer ao sistema de saúde dos papás.

Basicamente o que nos querem dizer é : agora tens 26 anos, desenrasca-te!

E nós desenrascamos, ou tentamos, pelo menos.

Mete medo e mais qualquer coisa.

Quando éramos miúdos, olhávamos para as pessoas “grandes” de 26 anos e pensávamos no milhão de coisas que já teríamos feito e seríamos nessa altura. As nossas casas e carros, as nossas carreiras, os nossos filhos e casamentos, não por esta ordem.

Hoje olhamos para nós e não parece que temos 26 anos, quanto mais que já podíamos ter todas aquelas coisas.

Não foi como planeámos – não que seja mau, que não é -, mas já percebemos que vai ser mais dificil para os que têm 26 agora, do que os que os fizeram há 10 ou 15 anos atrás. É mais dificil porque temos uns 26 sem perspectivas, olhamos à volta e parece que está tudo desarrumado e sem sentido. Nós não estamos onde devíamos estar!  É estranho, é como se nos faltasse alguma coisa, um sentido, perspectivas, planos.

E depois… mesmo assim, há quem insista que devemos crescer à força, deixar de ser os miúdos que somos, assassinar a nossa criança e tornar-mo-nos adultos respeitáveis e sisudos, tipo yuppies mas com uma conta bancária menos recheada, que é tudo a que temos direito! Exigem-nos que cresçamos mas não nos tratam como adultos! Basicamente é como venderes a alma em saldos!

Era bonito! O que nos sobrava? No fim do dia, à hora de almoço e aos fins de semana, não tínhamos nada se perdessemos essa capacidade de esquecer os 26 anos, as convenções, as idiotices que nos impingem, as tretas que vemos e sentimos todos os dias. É essa criança que nos salva, é essa capacidade que nos move, e, mais que nunca, não podemos abdicar dela, isso seria abdicar – mais um bocadinho – de nós.

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02/06/2009 at 17:05 1 comentário

Das lições do futebol

Li hoje num jornal desportivo que, face à derrota de ontem do Sporting contra o Bayern de Munique, Abel disse, simplesmente:  “Temos de aceitar todos os adjectivos que encontrem.(…) Agora é fácil criticar, os resultados são estes, não há como fugir. Temos de dar o peito às balas. Se calhar, contra equipas deste nível, temos de jogar mais à defesa.”


Tem razão o Abel, às vezes não há como fugir, às vezes as coisas correm mal, mas mal mesmo e, nessas vezes, por muito que custe e por muito injusto que soe, temos de aceitar os adjectivos.

A humildade é isso mesmo e, às vezes, nessas vezes, é a única coisa, o único adjectivo, que resta e que pode mudar tudo. É como o último reduto dos que falharam: só lhes resta ser humildes, reconhecer e seguir em frente. É que perante alguém que reconhece, honestamente, merecer os adjectivos que lhe dermos, ficamos desarmados e é, precisamente, esse o poder da humildade, o poder de inutilizar as críticas, de surpreender o crítico. Porque, ao contrário, do que muitos pensam, há muito mais força que fraqueza na humildade, e muito mais inteligência que pobreza de espirito. Pena que muito poucas pessoas consigam ver isso.

11/03/2009 at 18:31 1 comentário

Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre, percebes?

forget1Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Os amores têm de acabar, as pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar. Sim, mas como se faz? Como se esquece?Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Não se pode esquecer alguém antes de terminar de lembra-lo. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso.É preciso aceitar a separação e a tristeza, a falta de justiça, a falta de solução.O esquecimento não tem arte. É preciso deixar correr o coração de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.O mais difícil é aceitar. Há lembranças e amores que necessitam do afastamento para poderem continuar. (…)As pessoas nunca deveriam deixar de se amar, nem separar-se, nem esquecer-se, mas separam-se e esquecem-se. Custa, Mas é preciso aceitar. É preciso sofrer, dar urros, murros na mesa, não perceber. E aceitar.(…)Mas como esquecer? Como deixar acabar aquela dor? É preciso ter paciência. É preciso sofrer. É preciso aguentar.Há grandeza no sofrimento. Sofrer é respeitar o tamanho que teve um amor.Para esquecer uma pessoa não ha vias rápidas, não ha suplentes, não há calmantes, ilhas e viagens, livros de poesia, copos ou amigos. Só há lembrança, dor e lentidão, com intervalos no meio para retomar o fôlego.Podemos arranjar as maneiras que quisermos de odiar quem amámos, de nos vingarmos, de nos pormos a milhas, de lhe compormos redondilhas, mas tudo isto não tem mal, nem faz bem nenhum. Conta tudo como lembrança, saudade contrariada, enraivecida, embaraçada por ter sido apanhada na via pública.O que é preciso é igualar a intensidade do amor a quem se ama e a quem se perdeu. Para esquecer, é preciso dar algo em troca. Os grandes esquecimentos saem sempre caros. (…)Quando mais fácil amar e lembrar alguém, mais fácil deixar de amá-lo e esquecê-lo. Raio de sorte, miséria suprema do amor. Pode esquecer-se quem nos vem à lembrança, aqueles de quem nos lembramos de vez em quando, com dor ou alegria, tanto faz, com tempo e com paciência, aqueles que amámos com paciência, aqueles que amámos sinceramente, que nos deixaram, vazios de mãos e cheios de saudades, esses doem-se e depois esquecem-se mais ou menos bem.(…)

Miguel Esteves Cardoso

10/03/2009 at 16:30 6 comentários

Como uma pedra

É preciso reconhecer isso, às vezes, simplesmente, não dá mais. Há pessoas que desperdiçam todas as oportunidades que lhes dás, está na natureza delas.

questionable-ethicsE nada é mais tristemente absurdo do que olhar para uma pessoa e vê-la mentir-te descaradamente. Ela fica, de repente, completamente ridícula perante ti, como se ficasse nitida, mas de uma maneira absolutamente grotesca, como uma pedra. É aquilo que é, não esperes mais nada, não há nada a negar a partir dali, e nem nada a esperar.

E depois, há ali uma altura em que quase que lamentas por essa pessoa a situação em que se colocou, e então perguntas outra vez, e outra vez vês uma oportunidade desperdiçada e cansas-te, não podemos ser sempre parvos, está na nossa natureza.

Estar frente a frente com alguém que te mente descaradamente, alguém que te passa um atestado de atrasado mental com a mesma leviandade com que veste uma t-shirt lavada; veres a cara de alguém que deturpa factos e os usa sem qualquer tipo de pudor é mais do que assustador, é triste. Mesmo!

Mudas nesse dia, nesses dias, e acreditas um bocadinho menos, ” as pessoas morrem quando nos decepcionam” e, ao mesmo tempo, matam um pedacinho de nós, da nossa ingenuidade. Cá está. Aprendemos com isso? Crescemos? Sim, mas não nos faz mais felizes, pelo contrário.

04/03/2009 at 11:55 2 comentários

For the most part, we’re still a bunch of kids…

“After careful consideration and many sleepless nights, here’s what I’ve decided. There’s no such thing as a grown-up. We move out, we move away from our families. But the basic insecurities, the fears and all the old wounds just grow up with us. Just when you think life has forced you to truly become an adult, your mother says something like that. We get bigger, taller, older. But, for the most part, we’re still a bunch of kids, running around the playground, trying desperately to fit in.”

Meredith Grey, in Grey’s Anatomy

02/03/2009 at 17:24 Deixe o seu comentário

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